Síntese das leituras recomendadas
Costa & Matos (2007:80) apresenta a proposta de Stevahn (2004), de integrar no currículo programas que permitam o desenvolvimento moral e social. A abordagem proposta implica a revisão dos conteúdos programáticos integrando nestes os dilemas que apelem ao uso de procedimentos de negociação e mediação construtiva para resolver conflitos. Este autor propõe o programa TSP ( Teachuing Studants to be Peacemakers) jonhson & jonhson (1995). Aponta cinco fases para atingir objectivos:
1- Estabelecer condições cooperativas na turma;
2- Definir o conflito e ensinar os alunos a identificarem exemplos concretos no currículo;
3-Ensinar procedimentos de negociação e mediação e praticar a resolução de conflitos;
4- Processar a eficácia de cada prática, promovendo o refinar das competências para uso futuro;
5- Finalmente resolver construtivamente conflitos reais que ocorram nas turmas ou na escola.
O que se pretende é conciliar a aprendizagem dos conteúdos teóricos com a resolução de problemas através de uma metodologia construtivista.
As estratégias passam pelas reuniões de turma, centro de resolução de conflitos, onde deverá ser usado um discurso na primeira pessoa para cativar o jovem, o saber escutar, e o mais importante o treino de mediação de pares para alunos, o vocabulário afectivo, a comunicação positiva em situações de conflito. Os estudos tem revelado que estas medidas trazem mais-valia ao nível do desenvolvimento do raciocínio, contrariamente onde foi aplicada a técnica da comparação.
O treino na resolução de conflitos, contribui para as mudanças de comportamento específico relacionado com a escola, levando a escolhas comportamentais e valores aceitáveis além do ganho nos aspectos cognitivos, envolve o desenvolvimento social e moral dos alunos, melhora o raciocínio em contexto, o que pode melhorar o comportamento destes alunos fora da escola.
(Pianta, 1999), citado em Costa & Matos (2007:86) aponta outra forma de abordagem sistémica para a resolução do conflito, partindo do pressuposto que a analise do sistema relacional criança/professor, permite a compreensão do sistema relacional na escola ( e também em casa).
Este modelo pressupõe que a relação professor/aluno não se fica pela interacção entre ambos, referindo os seguintes componentes primários da relação:
a) Características individuais do aluno e do professor, como: o temperamento, a personalidade, atribuições, auto-conceito, história desenvolvimental, crenças entre outros;
b) As representações que cada um tem na relação;
c) Os processos de troca de informação, como a linguagem e a comunicação;
d) Influências externas sobre o sistema em que as coisas acontecem, as outras turmas, a escola, a comunidade, a família, os pares. Estas influências têm interferências umas nas outras, as trocas de informação, o temperamento e as influências externas estão interligadas com as representações que ambas as partes têm da relação. No entanto os intervenientes não estão ao mesmo nível desenvolvimental, há por isso diferentes responsabilidades, na qualidade da relação.
Aqui aparecem os exemplos de professores e histórias em que um ou outro marcou a sua personalidade de forma positiva ou negativa.Quando os professores estão atentos e apoiam as necessidades emocionais dos alunos, estes sentem a escola sua, gostam mais dela, sentem mais segurança.
Esta perspectiva coloca o professor a reproduzir um papel de algum professor que o marco, considerando que a informação é solução para os problemas, quer se trate de sida de droga ou de outros. No entanto, a investigação vem demonstrando que o conhecimento não controla os comportamentos de risco. Então porquê continuar com estas metodologias? Que alterações se deve introduzir?
Passar de informadores a formadores comporta mais dificuldades, maior investimento emocional e o professor nem sempre se considera preparado. Alguns autores consideram que são ineficazes algumas das estratégias usadas e colocam ênfase na dimensão desenvolvimental dos elementos que constituem o sistema de relações, nomeadamente nas suas interacções dinâmicas e em constante mudança no contexto escolar. O conflito resolve-se promovendo o desenvolvimento psicossocial de todos os elementos que constituem o sistema, numa actuação proactiva a diferentes níveis e que dá competências aos seus indivíduos para construírem as suas vidas. Desta forma, as estratégias terão de ser orientadas para intervir no momento mas com vista ao desenvolvimento dos elementos que constituem o sistema, na sua essência de individualidade, sem estandardização e com o objectivo de modular comportamentos.
A proposta de Coleman e Deutsch de um modelo com diferentes níveis de análise
Uma abordagem sistémica para a mudança da escola:
1. Disciplina
2. Currículo
3. Pedagogia
4. Cultura escolar
5. Comunidade
A mudança implica a intervenção a todos os níveis do sistema escolar, o caminho não se faz isoladamente, mas com experiencias continuadas de resolução construtiva de conflitos, no âmbito das diferentes áreas disciplinares, na criação de um ambiente escolar vantajoso à aprendizagem, o que se pretende será construir uma escola que sirva de modelo aos alunos. Estas experiências irão permitir o desenvolvimento de atitudes e competências nos alunos, de forma a resistir às influências contraditórias que vem de fora do espaço escolar, permitirá aos alunos a preparação necessária para a cooperação com os outros na resolução construtiva de conflitos, capazes de exercer as funções sociais e generaliza-las. Promovendo desta forma atitudes e valores conhecimentos e competências. As suas intervenções irão centrar-se nos valores de interdependência social positiva, não-violência e justiça social.
A disciplina, consistirá nos programas de mediação de pares, para tal terão de possuir formação e supervisão de acompanhamento, a fim de preparar os alunos e professores escolhidos para servirem de mediadores. Pois os conflitos não se restringem aos alunos poderão ocorrer entre alunos/professores, pais/professores, professores/administradores. A tentativa de resolver estas situações obriga a que a formação dos mediadores incida nos princípios da resolução construtiva dos conflitos e se apoie em regras que todos conheçam. Os centros de mediação que se deveriam constituir nas escolas desta forma, devem ser divulgados de forma a que a comunidade conheça a sua existência e o que se propõem atingir, a fim de ter efeitos positivos, quer ao nível dos alunos como da restante comunidade educativa e seja verdadeiramente eficaz e contribuam para satisfação dos envolvidos no processo, resolvendo os conflitos pessoais, valores psicossociais, agressividade. Os alunos mediadores adquirem maior auto-estima e autoconfiança, assertividade face à escola. A escola ganha com a diminuição dos processos disciplinares e melhoria dos ambientes de aprendizagem quer a nível cognitivo quer de valores como a amizade, desenvolvendo-se no global um clima positivo.
O currículo, passa pela constituição de programas dirigidos aos alunos que têm a ver com a resolução de conflitos e a forma de e os minimizar e dissolver, para isso os currículos inserem temas relativos á compreensão da existência dos conflitos, as causas, a forma de comunicar, de lidar com a fúria, a cooperação, assertividade, consciência das diferenças, diversidade cultural, resolução de conflitos e pacificação, sempre de acordo com as características dos alunos. O processo terá de ser cooperativo para ser eficaz.
O aluno é ensinado a:
1. Perceber o tipo de conflito;
2. Tomar consciência das causas e consequências,
3. Enfrentar conflitos;
4. Respeitar-se a si próprio e aos outros;
5. Evitar o etnocentrismo, compreender e aceitar a diferença cultural;
6. Distinguir entre “interesses” e “posições”
7. Explorar os seus interesses e os do outro;
8. Definir os interesses em conflito como um problema mútuo;
9. Ouvir atentamente e falar de forma a ser compreendido meta-comunicado;
10. Estar atento às tendências naturais para enviesar, de forma a evitar mal entendidos e comportamentos agressivos.
11. Desenvolver competências para lidar com situações difíceis, ganhar confiança e segurança, de forma a resolve-los construtivamente;
12. Conhecer-se a si próprio para melhorar as suas atitudes e compreender os seus pontos fracos e fortes, de forma a não criar e melhor evitar conflitos;
13. Ganhar a capacidade de compreender o outro e ter a capacidade de ajudar.
Estas intervenções revelam-se positivas quer a nível pessoal quer transpessoal (Deutsch,1993, Roderick, 1998).
No que refere à pedagogia defende-se o uso de estratégias de aprendizagem cooperativa em contraponto com as disciplinas regulares.
A aprendizagem cooperativa constitui-se por interdependência positiva, segundo (Johnson, Johnson & Holubec, 1986) apresenta cinco aspectos chave: interacção face a face, processamento ou análise do funcionamento dos grupos de aprendizagem.
Segundo (Bessa & Fontaine, 2002), as experiências da aprendizagem cooperativa, produz resultados superiores, quando comparada com a aprendizagem competitiva e individualista. É para isso necessário mudar a estrutura e funcionamento da escola e da sala de aula, de novas estratégias por parte dos professores, traduz-se numa aprendizagem de competências que ajudam a valorizar o outro e a si mesmo, na perspectiva social, emocional e cognitiva. Apresentam-se alguns mitos em relação a este tipo de aprendizagem, que poderá ser entendido como um entrave à mudança, pois a solidariedade desenvolvida no ensino cooperativo é saudável e contribuirá para a criação de uma sociedade mais justa e equilibrada, não descurando a exigência e as capacidades de cada um.
A cultura escolar é um dos aspectos importantes, tem a ver com os indivíduos que já saíram da escola e no que transmitem aos discentes e seus educandos, em sociedades com uma cultura escolar elevada a formação supera em muito os problemas.
A sociedade é também um pilar básico para que o sistema de ensino funcione que terá de ser adaptado á realidade, é necessário o envolvimento da sociedade do poder político, na motivação do interesse pela escola, é um olhar para a escola como motor de desenvolvimento a todos os níveis, detentora de um sistema aberto á comunidade, utilizando estratégias criativas adaptadas aos contextos que lhe surgem, assumindo uma identidade própria, cada caso é um caso diferente.
A resolução dos problemas passa pela existência de equipas multidisciplinares, com técnicos consultores, colaboradores, que facilitem a funcionalidade da comunicação, apresentando-se numa postura neutral.
Estes modelos levam à necessidade de uma intervenção no sistema escolar, da necessidade de encorajar a colaboração, e a construção de relações de respeito entre todos os intervenientes, em que todos se sentem actores com a consciência de que fazem parte de um todo que trabalha em equipa para um fim comum.
- Costa, E.; Matos, P. (2007). Abordagem sistémica do conflito. Lisboa: Universidade Aberta.pp.75-120.
Será este o caminho da mudança?
.jpg)
Sem comentários:
Enviar um comentário